Sabedoria
Sabedoria, 1
1 - Amai a justiça, vós que governais a terra, tende para com o Senhor sentimentos perfeitos, e procurai-o na simplicidade do coração,
2 - porque ele é encontrado pelos que o não tentam, e se revela aos que não lhe recusam sua confiança
3 - com efeito, os pensamentos tortuosos afastam de Deus, e o seu poder, posto à prova, triunfa dos insensatos.
4 - A Sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado
5 - o Espírito Santo educador (das almas) fugirá da perfídia, afastar-se-á dos pensamentos insensatos, e a iniquidade que sobrevém o repelirá.
6 - Sim, a Sabedoria é um espírito que ama os homens, mas não deixará sem castigo o blasfemador pelo crime de seus lábios, porque Deus lhe sonda os rins, penetra até o fundo de seu coração, e ouve as suas palavras.
7 - Com efeito, o Espírito do Senhor enche o universo, e ele, que tem unidas todas as coisas, ouve toda voz.
8 - Aquele que profere uma linguagem iníqua, não pode fugir dele, e a Justiça vingadora não o deixará escapar
9 - pois os próprios desígnios do ímpio serão cuidadosamente examinados o som de suas palavras chegará até o Senhor, que lhe imporá o castigo pelos seus pecados.
10 - É, com efeito, um ouvido cioso, que tudo ouve: nem a menor murmuração lhe passa despercebida.
11 - Acautelai-vos, pois, de queixar-vos inutilmente, evitai que vossa língua se entregue à crítica, porque até mesmo uma palavra secreta não ficará sem castigo, e a boca que acusa com injustiça arrasta a alma à morte.
12 - Não procureis a morte por uma vida desregrada, não sejais o próprio artífice de vossa perda.
13 - Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma.
14 - Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é a rainha da terra,
15 - porque a justiça é imortal.
16 - Mas, (a morte), os ímpios a chamam com o gesto e a voz. Crendo-a amiga, consomem-se de desejos, e fazem aliança com ela de fato, eles merecem ser sua presa.
Sabedoria, 2
1 - Dizem, com efeito, nos seus falsos raciocínios: Curta é a nossa vida, e cheia de tristezas para a morte não há remédio algum não há notícia de ninguém que tenha voltado da região dos mortos.
2 - Um belo dia nascemos e, depois disso, seremos como se jamais tivéssemos sido! É fumaça a respiração de nossos narizes, e nosso pensamento, uma centelha que salta do bater de nosso coração!
3 - Extinta ela, nosso corpo se tornará pó, e o nosso espírito se dissipará como um vapor inconsistente!
4 - Com o tempo nosso nome cairá no esquecimento, e ninguém se lembrará de nossas obras. Nossa vida passará como os traços de uma nuvem, desvanecer-se-á como uma névoa que os raios do sol expulsam, e que seu calor dissipa.
5 - A passagem de uma sombra: eis a nossa vida, e nenhum reinício é possível uma vez chegado o fim, porque o selo lhe é aposto e ninguém volta.
6 - Vinde, portanto! Aproveitemo-nos das boas coisas que existem! Vivamente gozemos das criaturas durante nossa juventude!
7 - Inebriemo-nos de vinhos preciosos e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera!
8 - Coroemo-nos de botões de rosas antes que eles murchem!
9 - Ninguém de nós falte à nossa orgia em toda parte deixemos sinais de nossa alegria, porque esta é a nossa parte, esta a nossa sorte!
10 - Tiranizemos o justo na sua pobreza, não poupemos a viúva, e não tenhamos consideração com os cabelos brancos do ancião!
11 - Que a nossa força seja o critério do direito, porque o fraco, em verdade, não serve para nada.
12 - Cerquemos o justo, porque ele nos incomoda é contrário às nossas ações ele nos censura por violar a lei e nos acusa de contrariar a nossa educação.
13 - Ele se gaba de conhecer a Deus, e se chama a si mesmo filho do Senhor!
14 - Sua existência é uma censura às nossas idéias basta sua vista para nos importunar.
15 - Sua vida, com efeito, não se parece com as outras, e os seus caminhos são muito diferentes.
16 - Ele nos tem por uma moeda de mau quilate, e afasta-se de nosso caminhos como de manchas. Julga feliz a morte do justo, e gloria-se de ter Deus por pai.
17 - Vejamos, pois, se suas palavras são verdadeiras, e experimentemos o que acontecerá quando da sua morte,
18 - porque, se o justo é filho de Deus, Deus o defenderá, e o tirará das mãos dos seus adversários.
19 - Provemo-lo por ultrajes e torturas, a fim de conhecer a sua doçura e estarmos cientes de sua paciência.
20 - Condenemo-lo a uma morte infame. Porque, conforme ele, Deus deve intervir.
21 - Eis o que pensam, mas enganam-se, sua malícia os cega:
22 - eles desconhecem os segredos de Deus, não esperam que a santidade seja recompensada, e não acreditam na glorificação das almas puras.
23 - Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez à imagem de sua própria natureza.
24 - É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo, e os que pertencem ao demônio prová-la-ão.
Sabedoria, 3
1 - Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará.
2 - Aparentemente estão mortos aos olhos dos insensatos: seu desenlace é julgado como uma desgraça.
3 - E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz!
4 - Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade,
5 - e por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, achou-os dignos de si.
6 - Ele os provou como ouro na fornalha, e os acolheu como holocausto.
7 - No dia de sua visita, eles se reanimarão, e correrão como centelhas na palha.
8 - Eles julgarão as nações e dominarão os povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre.
9 - Os que põem sua confiança nele compreenderão a verdade, e os que são fiéis habitarão com ele no amor: porque seus eleitos são dignos de favor e misericórdia.
10 - Mas os ímpios terão o castigo que merecem seus pensamentos, uma vez que desprezaram o justo e se separaram do Senhor: e desgraçado é aquele que rejeita a sabedoria e a disciplina!
11 - A esperança deles é vã, seus sofrimentos sem proveito, e as obras deles inúteis.
12 - Suas mulheres são insensatas e seus filhos malvados a raça deles é maldita.
13 - Feliz a mulher estéril, mas pura de toda a mancha, a que não manchou seu tálamo: ela carregará seu fruto no dia da retribuição das almas.
14 - Feliz o eunuco cuja mão não cometeu o mal, que não concebeu iniquidade contra o Senhor, porque ele receberá pela sua fidelidade uma graça de escol, e no templo do Senhor uma parte muito honrosa,
15 - porque é esplêndido o fruto de bons trabalhos, e a raiz da sabedoria é sempre fértil.
16 - Quanto aos filhos dos adúlteros, a nada chegarão, e a raça que descende do pecado será aniquilada.
17 - Ainda que vivam muito tempo, serão tidos por nada e, finalmente, sua velhice será sem honra.
18 - Caso morram cedo, não terão esperança alguma, e no dia do julgamento não encontrarão nenhuma piedade:
19 - porque é lamentável o fim de uma raça injusta.
Sabedoria, 4
1 - Mais vale uma vida sem filhos, mas rica de virtudes: sua memória será imortal, porque será conhecida de Deus e dos homens.
2 - Quando está presente, imitam-na quando passada, desejam-na ela leva na glória uma coroa eterna, por ter triunfado sem mancha nos combates.
3 - Mas para nada servirá, ainda que numerosa, a raça dos ímpios procedendo de renovos bastardos, não estenderá raízes profundas, não se estabelecerá numa base sólida.
4 - Ainda que por algum tempo estenda seus ramos, estando instavelmente assentada, será abalada pelo vento e, pela violência da tempestade, será desarraigada.
5 - Os galhos serão quebrados antes do desenvolvimento, o fruto deles será inútil, verde demais para ser comido, e impróprio para qualquer uso,
6 - porque os filhos nascidos de uniões ilícitas serão no dia do juízo testemunhas a deporem contra seus pais.
7 - Quanto ao justo, mesmo que morra antes da idade, gozará de repouso.
8 - A honra da velhice não provém de uma longa vida, e não se mede pelo número dos anos.
9 - Mas é a sabedoria que faz as vezes dos cabelos brancos é uma vida pura que se tem em conta de velhice.
10 - Ele agradou a Deus e foi por ele amado, assim (Deus) o transferiu do meio dos pecadores onde vivia.
11 - Foi arrebatado para que a malícia lhe não corrompesse o sentimento, nem a astúcia lhe pervertesse a alma:
12 - porque a fascinação do vício atira um véu sobre a beleza moral, e o movimento das paixões mina uma alma ingênua.
13 - Tendo chegado rapidamente ao termo, percorreu uma longa carreira.
14 - Sua alma era agradável ao Senhor, e é por isso que ele o retirou depressa do meio da perversidade. Os povos que vêem esse modo de agir não o compreendem, e não refletem nisto:
15 - que o favor de Deus e sua misericórdia são para seus eleitos, e sua assistência está no meio de seus fiéis.
16 - O justo, ao morrer, condena os ímpios que sobrevivem, e a juventude, atingindo tão depressa a perfeição, confunde a longa velhice do pecador.
17 - Eles verão o fim do sábio, e não compreenderão os desígnios do Senhor a seu respeito, nem por que ele o pôs em segurança.
18 - Eles verão e mostrarão desprezo, mas o Senhor zombará deles.
19 - Depois disso serão cadáveres sem honra, desterrados entre os mortos, numa eterna ignomínia, porque ele os ferirá, e os precipitará sem voz, abatê-los-á nas suas bases e os mergulhará na última desolação. Eles serão entregues à dor, e a memória deles perecerá.
20 - Comparecerão aterrorizados com a lembrança de seus pecados, e suas iniquidades se levantarão contra eles para os confundir.
Sabedoria, 5
1 - Então, com grande confiança, o justo se levantará em face dos que o perseguiram e zombaram dos seus males aqui embaixo.
2 - Diante de sua vista serão presos de grande temor e tomados de assombro ao vê-lo salvo contra sua expectativa
3 - tocados de arrependimento, dirão entre si, e, gemendo na angústia de sua alma, dirão:
4 - Ei-lo, aquele de quem outrora escarnecemos, e a quem loucamente cobrimos de insultos! Considerávamos sua vida como uma loucura, e sua morte como uma vergonha.
5 - Como, pois, é ele do número dos filhos de Deus, e como está seu lugar entre os santos?
6 - Portanto, nós nos desgarramos para longe da verdade: a luz da justiça não brilhou para nós e o sol não se levantou sobre nós!
7 - Nós nos manchamos nas sendas da iniquidade e da perdição, erramos pelos desertos sem caminhos e não conhecemos o caminho do Senhor!
8 - O que ganhamos com nosso orgulho, e que nos trouxe a riqueza unida à arrogância?
9 - Tudo isso desapareceu como sombra, como notícia que passa
10 - como navio que fende a água agitada, sem que se possa reencontrar o rasto de seu itinerário, nem a esteira de sua quilha nas ondas.
11 - Como a ave que, atravessando o ar em seu vôo, não deixa após si o traço de sua passagem, mas, ferindo o ar com suas penas, fende-o com a impetuosa força do bater de suas asas, atravessa-o e logo nem se nota indício de sua passagem
12 - como quando uma flecha, que é lançada ao alvo, o ar que ela cortou volta imediatamente à sua posição de modo que não se pode distinguir sua trajetória,
13 - assim, também nós, apenas nascidos, cessamos de ser, e não podemos mostrar traço algum de virtude: é no mal que nossa vida se consumiu!
14 - Assim a esperança do ímpio é como a poeira levada pelo vento, e como uma leve espuma espalhada pela tempestade ela se dissipa como o fumo ao vento, e passa como a lembrança do hóspede de um dia.
15 - Mas os justos viverão eternamente sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo cuidará deles.
16 - Por isso receberão a régia coroa de glória, e o diadema da beleza da mão do Senhor, porque os cobrirá com sua direita, e os protegerá com seu braço.
17 - Por armadura tomará seu zelo cioso, e armará as criaturas para se vingar de seus inimigos.
18 - Tomará por couraça a justiça, e por capacete a integridade no julgamento.
19 - Ele se cobrirá com a santidade, como com um impenetrável escudo,
20 - afiará o gume de sua ira para lhe servir de espada, e o mundo se reunirá a ele na luta contra os insensatos.
21 - Os raios partirão como flechas bem dirigidas, e, como de um arco bem distendido, voarão das nuvens para o alvo
22 - uma balista fará cair uma pesada saraiva de ira a água do mar se levantará em turbilhão contra eles e os rios os arrastarão impetuosamente.
23 - O sopro do Todo-poderoso se insurgirá contra eles e os dispersará como um furacão a iniquidade fará de toda a terra um deserto, e a malícia derribará os tronos dos poderosos!
Sabedoria, 6
1 - Ouvi, pois, ó reis, e entendei aprendei vós que governais o universo!
2 - Prestai ouvidos, vós que reinais sobre as nações e vos gloriais do número de vossos povos!
3 - Porque é do Senhor que recebestes o poder, e é do Altíssimo que tendes o poderio é ele que examinará vossas obras e sondará vossos pensamentos!
4 - Se, ministros do reino, vós não julgastes equitativamente, nem observastes a lei, nem andastes segundo a vontade de Deus,
5 - ele se apresentará a vós, terrível, inesperado, porque aqueles que dominam serão rigorosamente julgados.
6 - Ao menor, com efeito, a compaixão atrai o perdão, mas os poderosos serão examinados sem piedade.
7 - O Senhor de todos não fará exceção para ninguém, e não se deixará impor pela grandeza, porque, pequenos ou grandes, é ele que a todos criou, e de todos cuida igualmente
8 - mas para os poderosos o julgamento será severo.
9 - É a vós, pois, ó príncipes, que me dirijo, para que aprendais a Sabedoria e não resvaleis,
10 - porque aqueles que santamente observarem as santas leis serão santificados, e os que as tiverem estudado poderão justificar-se.
11 - Anelai, pois, pelas minhas palavras, reclamai-as ardentemente e sereis instruídos.
12 - Resplandecente é a Sabedoria, e sua beleza é inalterável: os que a amam, descobrem-na facilmente.
13 - Os que a procuram encontram-na. Ela antecipa-se aos que a desejam.
14 - Quem, para possuí-la, levanta-se de madrugada, não terá trabalho, porque a encontrará sentada à sua porta.
15 - Fazê-la objeto de seus pensamentos é a prudência perfeita, e quem por ela vigia, em breve não terá mais cuidado.
16 - Ela mesma vai à procura dos que são dignos dela ela lhes aparece nos caminhos cheia de benevolência, e vai ao encontro deles em todos os seus pensamentos,
17 - porque, verdadeiramente, desde o começo, seu desejo é instruir, e desejar instruir-se é amá-la.
18 - Mas amá-la é obedecer às suas leis, e obedecer às suas leis é a garantia da imortalidade.
19 - Ora, a imortalidade faz habitar junto de Deus
20 - assim o desejo da Sabedoria conduz ao Reino!
21 - Se, pois, cetros e tronos vos agradam, ó vós que governais os povos, honrai a Sabedoria, e reinareis eternamente.
22 - Mas eu vou dizer o que é a Sabedoria e como ela nasceu. Não vos esconderei os seus mistérios mas investigá-la-ei até sua mais remota origem porei à luz o que dela pode ser conhecido, e não me afastarei da verdade.
23 - Não imitarei aquele a quem a inveja consome, porque esse tal não tem nada a ver com a Sabedoria:
24 - é no grande número de sábios que se encontra a salvação do mundo, e um rei sensato faz a prosperidade de seu povo.
25 - Deixai-vos, pois, instruir por minhas palavras, e nelas encontrareis grande proveito.
Sabedoria, 7
1 - Eu mesmo não passo de um mortal como todos os outros, e descendo do primeiro homem formado da terra. Meu corpo foi formado no seio de minha mãe,
2 - onde, durante dez meses, no sangue tomou consistência, da semente viril e do prazer ajuntado à união (conjugal).
3 - Eu também, desde meu nascimento, respirei o ar comum eu caí, da mesma maneira que todos, sobre a mesma terra, e, como todos, nos mesmos prantos soltei o primeiro grito.
4 - Envolto em faixas fui criado no meio de assíduos cuidados
5 - porque nenhum rei teve outro início na existência
6 - para todos a entrada na vida é a mesma e a partida semelhante.
7 - Assim implorei e a inteligência me foi dada, supliquei e o espírito da sabedoria veio a mim.
8 - Eu a preferi aos cetros e tronos, e avaliei a riqueza como um nada ao lado da Sabedoria.
9 - Não comparei a ela a pedra preciosa, porque todo o ouro ao lado dela é apenas um pouco de areia, e porque a prata diante dela será tida como lama.
10 - Eu a amei mais do que a saúde e a beleza, e gozei dela mais do que da claridade do sol, porque a claridade que dela emana jamais se extingue.
11 - Com ela me vieram todos os bens, e nas suas mãos inumeráveis riquezas.
12 - De todos esses bens eu me alegrei, porque é a Sabedoria que os guia, mas ignorava que ela fosse sua mãe.
13 - Eu estudei lealmente e reparto sem inveja e não escondo a riqueza que ela encerra,
14 - porque ela é para os homens um tesouro inesgotável e os que a adquirem preparam-se para se tornar amigos de Deus, recomendados (a ele) pela educação que ela lhes dá.
15 - Que Deus me permita falar como eu quisera, e ter pensamentos dignos dos dons que recebi, porque é ele mesmo quem guia a sabedoria e emenda os sábios,
16 - porque nós estamos nas suas mãos, nós e nossos discursos, toda a nossa inteligência e nossa habilidade
17 - foi ele quem me deu a verdadeira ciência de todas as coisas, quem me fez conhecer a constituição do mundo e as virtudes dos elementos,
18 - o começo, o fim e o meio dos tempos, a sucessão dos solstícios e as mutações das estações,
19 - os ciclos do ano e as posições dos astros,
20 - a natureza dos animais e os instintos dos brutos, os poderes dos espíritos e os pensamentos dos homens, a variedade das plantas e as propriedades das raízes.
21 - Tudo que está escondido e tudo que está aparente eu conheço: porque foi a sabedoria, criadora de todas as coisas, que o ensinou.
22 - Há nela, com efeito, um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, puro, claro, inofensivo, inclinado ao bem, agudo,
23 - livre, benéfico, benévolo, estável, seguro, livre de inquietação, que pode tudo, que cuida de tudo, que penetra em todos os espíritos, os inteligentes, os puros, os mais sutis.
24 - Mais ágil que todo o movimento é a Sabedoria, ela atravessa e penetra tudo, graças à sua pureza.
25 - Ela é um sopro do poder de Deus, uma irradiação límpida da glória do Todo-poderoso assim mancha nenhuma pode insinuar-se nela.
26 - É ela uma efusão da luz eterna, um espelho sem mancha da atividade de Deus, e uma imagem de sua bondade.
27 - Embora única, tudo pode imutável em si mesma, renova todas as coisas. Ela se derrama de geração em geração nas almas santas e forma os amigos e os intérpretes de Deus,
28 - porque Deus somente ama quem vive com a sabedoria!
29 - É ela, com efeito, mais bela que o sol e ultrapassa o conjunto dos astros. Comparada à luz, ela se sobreleva,
30 - porque à luz sucede a noite, enquanto que, contra a Sabedoria, o mal não prevalece.
Sabedoria, 8
1 - Ela estende seu vigor de uma extremidade do mundo à outra e governa todas as coisas com felicidade.
2 - Eu a amei e procurei desde minha juventude, esforcei-me por tê-la por esposa e me enamorei de seus encantos.
3 - Ela mostra a nobreza de sua origem em conviver com Deus, ela é amada pelo Senhor de todas as coisas.
4 - Ela é iniciada na ciência de Deus e, por sua escolha, decide de suas obras.
5 - Se a riqueza é um bem desejável na vida, que há de mais rico que a Sabedoria que tudo criou?
6 - Se a inteligência do homem consegue operar, o que, então, mais que a Sabedoria, é artífice dos seres?
7 - E se alguém ama a justiça, seus trabalhos são virtudes ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a força: não há ninguém que seja mais útil aos homens na vida.
8 - Se alguém deseja uma vasta ciência, ela sabe o passado e conjectura o futuro conhece as sutilezas oratórias e revolve os enigmas prevê os sinais e os prodígios, e o que tem que acontecer no decurso das idades e dos tempos.
9 - Portanto, resolvi tomá-la por companheira de minha vida, cuidando que ela será para mim uma boa conselheira, e minha consolação nos cuidados e na tristeza.
10 - Graças a ela, receberei as honras das multidões, e, embora jovem como sou, o respeito dos anciãos.
11 - Reconhecerão a penetração de meu julgamento, e excitarei a admiração dos reis.
12 - Se me calo, esperarão que eu fale se falo, estarão atentos e se prolongo meu discurso, levarão a mão à boca.
13 - Por meio dela obterei a imortalidade, e deixarei à posteridade uma lembrança eterna.
14 - Governarei povos e as nações ser-me-ão submissas.
15 - Príncipes temíveis estarão cheios de medo ao ouvirem falar de mim mostrar-me-ei bom para com o povo e valoroso no combate.
16 - Recolhido em minha casa, repousarei junto dela, porque a sua convivência não tem nada de desagradável, e sua intimidade nada de fastidioso ela traz consigo, pelo contrário, o contentamento e a alegria!
17 - Meditando comigo mesmo nesses pensamentos, e considerando em meu coração que a imortalidade se encontra na aliança com a Sabedoria,
18 - a alegria perfeita na sua amizade, contínua riqueza na sua atividade, inteligência nas lições de seus entretenimentos familiares, e glória na comunicação de suas sentenças, saí à sua procura a fim de possuí-la em mim.
19 - Eu era um menino vigoroso, dotado de uma alma excelente,
20 - ou antes, como era bom, eu vim a um corpo intacto
21 - mas, consciente de não poder possuir a sabedoria, a não ser por dom de Deus, (e já era inteligência o saber de onde vem o dom), eu me voltei para o Senhor, e invoquei-o, dizendo do fundo do coração:
Sabedoria, 9
1 - Deus de nossos pais, e Senhor de misericórdia, que todas as coisas criastes pela vossa palavra,
2 - e que, por vossa sabedoria, formastes o homem para ser o senhor de todas as vossas criaturas,
3 - governar o mundo na santidade e na justiça, e proferir seu julgamento na retidão de sua alma,
4 - dai-me a Sabedoria que partilha do vosso trono, e não me rejeiteis como indigno de ser um de vossos filhos.
5 - Sou, com efeito, vosso servo e filho de vossa serva, um homem fraco, cuja existência é breve, incapaz de compreender vosso julgamento e vossas leis
6 - porque qualquer homem, mesmo perfeito, entre os homens, não será nada, se lhe falta a Sabedoria que vem de vós.
7 - Ora, vós me escolhestes para ser rei de vosso povo e juiz de vossos filhos e vossas filhas.
8 - Vós me ordenastes construir um templo na vossa montanha santa e um altar na cidade em que habitais: imagem da sagrada habitação que preparastes desde o princípio.
9 - Mas, ao lado de vós está a Sabedoria que conhece vossas obras ela estava presente quando fizestes o mundo, ela sabe o que vos é agradável, e o que se conforma às vossas ordens.
10 - Fazei-a, pois, descer de vosso santo céu, e enviai-a do trono de vossa glória, para que, junto de mim, tome parte em meus trabalhos, e para que eu saiba o que vos agrada.
11 - Com efeito, ela sabe e conhece todas as coisas prudentemente guiará meus passos, e me protegerá no brilho de sua glória.
12 - Assim, minhas obras vos serão agradáveis governarei vosso povo com justiça, e serei digno do trono de meu pai.
13 - Que homem, pois, pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor?
14 - Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções
15 - porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados.
16 - Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa no céu?
17 - E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos céus vós não lhe enviais vosso Espírito Santo?
18 - Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra os homens aprenderam as coisas que vos agradam e pela sabedoria foram salvos.
Sabedoria, 10
1 - O primeiro homem, o pai do mundo, que foi criado sozinho, foi a Sabedoria que cuidou dele, tirou-o de seu próprio pecado,
2 - e deu-lhe o poder de reinar sobre todas as coisas.
3 - E porque o perverso, na sua ira, dela se afastou, pereceu depois de seu furor fratricida.
4 - E estando a terra submersa por causa dele pelo dilúvio, a Sabedoria de novo o salvou, conduzindo o justo num lenho sem valor.
5 - E quando as nações unânimes caíram no mal, foi ela que distinguiu o justo, o manteve irrepreensível diante de Deus, e lhe deu a força para vencer sua ternura pelo seu filho.
6 - Foi ela que, quando do aniquilamento dos ímpios, salvou o justo, subtraindo-o ao fogo que descera sobre a Pentápole,
7 - cuja perversidade ainda no presente é testemunhada por uma terra fumegante e deserta, onde as árvores carregam frutos incapazes de amadurecer, e onde está erigida uma coluna de sal, memorial de uma alma incrédula.
8 - Porque aqueles que desprezaram a Sabedoria, não somente se prejudicaram em ignorar o bem, mas ainda deixaram aos homens um testemunho de sua loucura, para que seus pecados não fossem esquecidos.
9 - Quanto aos que a honram, a Sabedoria os liberta de sofrimentos
10 - foi ela que guiou por caminhos retos o justo que fugia à ira de seu irmão mostrou-lhe o reino de Deus, e deu-lhe o conhecimento das coisas santas ajudou-o nos seus trabalhos, e fez frutificar seus esforços
11 - cuidou dele contra ávidos opressores e o fez conquistar riquezas
12 - ela o protegeu contra seus inimigos e o defendeu dos que lhe armavam ciladas e no duro combate, deu-lhe vitória, a fim de que ele soubesse quanto a piedade é mais forte que tudo.
13 - Ela não abandonou o justo vendido, mas preservou-o do pecado.
14 - Desceu com ele à prisão, e não o abandonou nas suas cadeias, até que lhe trouxe o cetro do reino e o poder sobre os que o tinham oprimido revelou-lhe a mentira de seus acusadores, e conferiu-lhe uma glória eterna.
15 - Foi ela que livrou das nações que o tiranizavam, o povo santo e a raça irrepreensível
16 - entrou na alma do servo de Deus, e se opôs, com sinais e prodígios, a reis temíveis.
17 - Deu aos santos o galardão de seus trabalhos, conduziu-os por um caminho miraculoso durante o dia serviu-lhes de proteção, e deu-lhes a luz dos astros, durante a noite.
18 - Fê-los atravessar o mar Vermelho, e deu-lhes passagem através da massa das águas,
19 - ao passo que engoliu seus inimigos, e depois os tirou das profundezas do abismo.
20 - Também os justos, depois de despojados os ímpios, celebraram, Senhor, vosso santo nome, e louvaram, unidos num só coração, vossa mão protetora,
21 - porque a Sabedoria abriu a boca aos mudos, e tornou eloquente a língua das crianças.
Sabedoria, 11
1 - Pela mão de um santo profeta aplanou suas dificuldades
2 - eles atravessaram um deserto inabitado, e levantaram suas tendas em lugares ermos
3 - resistiram aos que os atacavam, e repeliram seus inimigos.
4 - Tiveram sede e clamaram a vós: do rochedo abrupto a água lhes foi dada, e da pedra seca estancaram sua sede.
5 - Porque os elementos que tinham servido para punir seus inimigos, foram-lhes dados, na sua necessidade, como benefício:
6 - em lugar das ondas de um rio perene turvadas por uma lama de sangue,
7 - pela punição do decreto que consagrava crianças à morte, vós lhes destes, de maneira inesperada, água em abundância,
8 - mostrando-lhes, pela sede que então sofreram, como punistes seus inimigos.
9 - Por isso, tratados com piedade na sua provação, reconheceram quanto deviam ter sofrido os ímpios, julgados com ira.
10 - A estes provastes como um pai que corrige, mas a outros provastes como um rei severo que condena.
11 - Tanto estando longe como perto, a dor os consumiu da mesma forma,
12 - porque tiveram um segundo para se entristecer e gemer à lembrança dos males passados.
13 - Compreendendo, com efeito, que o que era para eles castigo, era para outros ocasião de benefício, sentiram a mão do Senhor
14 - e aquele que, outrora exposto e abandonado, tinham repelido com zombaria, admiraram-no finalmente, porque sofreram uma sede diferente da sede do justo.
15 - Por outro lado, para os punir dos loucos pensamentos de sua perversidade, que os faziam extraviar-se na adoração de répteis irracionais e de vis animais, enviastes contra eles uma multidão de animais estúpidos,
16 - a fim de que compreendessem que por onde cada um peca, será punido.
17 - Não era difícil à vossa mão todo-poderosa, que formou o mundo de matéria informe, mandar contra eles bandos de ursos e de leões ferozes,
18 - ou animais desconhecidos e duma nova espécie, cheios de furor, exalando um hálito inflamado, ou espalhando um fumo infecto, ou lançando de seus olhos faíscas terríveis,
19 - capazes não só de os exterminar com seus golpes, mas ainda de os matar de terror só pelo seu aspecto.
20 - E, mesmo sem isso, eles poderiam perecer por um sopro, perseguidos pela justiça e arrebatados pelo vento de vosso poder mas, dispusestes tudo com medida, quantidade e peso,
21 - porque sempre vos é possível mostrar vosso poder imenso, e quem poderá resistir à força de vosso braço?
22 - Diante de vós o mundo inteiro é como um nada, que faz pender a balança, ou como uma gota de orvalho, que desce de madrugada sobre a terra.
23 - Tendes compaixão de todos, porque vós podeis tudo e para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens.
24 - Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto, se o odiásseis, não o teríeis feito de modo algum.
25 - Como poderia subsistir qualquer coisa, se não o tivésseis querido, e conservar a existência, se por vós não tivesse sido chamada?
26 - Mas poupais todos os seres, porque todos são vossos, ó Senhor, que amais a vida.
Sabedoria, 12
1 - Vosso espírito incorruptível está em todos.
2 - É por isso que castigais com brandura aqueles que caem, e os advertis mostrando-lhes em que pecam, a fim de que rejeitem sua malícia e creiam em vós, Senhor.
3 - Foi assim que se deu com os antigos habitantes da Terra Santa.
4 - Tínheis horror deles por causa de suas obras detestáveis, sua magia e seus ritos ímpios,
5 - seus cruéis morticínios de crianças, seus festins de entranhas, carne humana e sangue, suas iniciações nos mistérios orgíacos,
6 - e os crimes de pais contra seres indefesos e resolvestes aniquilá-los pela mão de nossos pais,
7 - para que esta terra, que estimais entre todas, recebesse uma digna colônia de filhos de Deus.
8 - Contudo, porque também eles eram homens, vós os poupastes, enviando-lhes vespas precursoras de vosso exército, para que elas os fizessem perecer pouco a pouco.
9 - Não é que vos fosse impossível esmagar os maus por meio dos justos num combate, ou exterminar todos juntos por animais ferozes ou por uma palavra categórica
10 - mas castigando-os pouco a pouco, dáveis tempo para o arrependimento, não ignorando que sua raça era maldita, ingênita a sua perversidade, e que jamais seus pensamentos se mudariam,
11 - porque sua estirpe era má desde a origem... Não era por temor do que quer que fosse que vos mostráveis indulgente para com eles em seus pecados.
12 - Porque, quem ousará dizer-vos: Que fizeste tu? E quem se oporá a vosso julgamento? Quem vos repreenderá de terdes aniquilado nações que criastes? Ou quem se levantará contra vós para defender os culpados?
13 - Não há, fora de vós, um Deus que se ocupa de tudo, e a quem deveis mostrar que nada é injusto em vosso julgamentos
14 - nem um rei, nem um tirano que vos possa resistir em favor dos que castigastes.
15 - Mas porque sois justo, governais com toda a justiça, e julgais indigno de vosso poder condenar quem não merece ser punido.
16 - Porque vossa força é o fundamento de vossa justiça e o fato de serdes Senhor de todos, vos torna indulgente para com todos.
17 - Mostrais vossa força aos que não crêem no vosso poder, e confundis os que a não conhecem e ousam afrontá-la.
18 - Senhor de vossa força, julgais com bondade, e nos governais com grande indulgência, porque sempre vos é possível empregar vosso poder, quando quiserdes.
19 - Agindo desta maneira, mostrastes a vosso povo que o justo deve ser cheio de bondade, e inspirastes a vossos filhos a boa esperança de que, após o pecado, lhes dareis tempo para a penitência
20 - porque se os inimigos de vossos filhos, dignos de morte, vós os haveis castigado com tanta prudência e longanimidade, dando-lhes tempo e ocasião para se emendarem,
21 - com quanto cuidado não julgareis vós os vossos filhos, a cujos antepassados concedestes com juramento vossa aliança, repleta de ricas promessas!
22 - Portanto, quando nos corrigis, castigais mil vezes mais nossos inimigos, para que em nossos julgamentos nos lembremos de vossa bondade, e para que esperemos em vossa indulgência quando somos julgados.
23 - Por isso também aqueles que loucamente viveram no mal, vós os torturastes por meio das suas próprias abominações:
24 - porque se tinham afastado demais nos caminhos do erro, tomando por deuses os mais vis animais, deixando-se enganar como meninos sem razão
25 - assim é que, como a meninos sem razão, lhes destes um castigo irrisório.
26 - Mas os que recusam a advertência de semelhante correção sofrerão um castigo digno de Deus.
27 - Excitados, então, pelos sofrimentos causados por esses animais que tinham julgado deuses, e que os atormentavam, viram o que no começo tinham recusado ver, e reconheceram o verdadeiro Deus. Por isso é que caiu sobre eles a condenação final.
Sabedoria, 13
1 - São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus, e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer Aquele que é, nem reconhecer o Artista, considerando suas obras.
2 - Tomaram o fogo, ou o vento, ou o ar agitável, ou a esfera estrelada, ou a água impetuosa, ou os astros dos céus, por deuses, regentes do mundo.
3 - Se tomaram essas coisas por deuses, encantados pela sua beleza, saibam, então, quanto seu Senhor prevalece sobre elas, porque é o criador da beleza que fez estas coisas.
4 - Se o que os impressionou é a sua força e o seu poder, que eles compreendam, por meio delas, que seu criador é mais forte
5 - pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor.
6 - Contudo, estes só incorrem numa ligeira censura, porque, talvez, eles caíram no erro procurando Deus e querendo encontrá-lo:
7 - vivendo entre suas obras, eles as observam com cuidado, e porque eles as consideram belas, deixam-se seduzir pelo seu aspecto.
8 - Ainda uma vez, entretanto, eles não são desculpáveis,
9 - porque, se eles possuíram luz suficiente para poder perscrutar a ordem do mundo, como não encontraram eles mais facilmente aquele que é seu Senhor?
10 - Mas são desgraçados e esperam em mortos, aqueles que chamaram de deuses a obras de mãos humanas: o ouro, a prata, artisticamente trabalhados, figuras de animais, alguma pedra inútil, a que, outrora, certa mão deu forma.
11 - Assim, um lenhador cortou e serrou uma árvore fácil de manejar. Habilmente ele lhe tirou toda a casca, e com a habilidade do seu ofício, fez dela um móvel útil para seu uso.
12 - Com as sobras de seu trabalho, cozinhou comida, com que se saciou.
13 - O que ainda lhe restava, não era bom para nada, não passando de madeira torcida e toda cheia de nós contudo, ele a tomou e consagrou suas horas de lazer a talhá-la ele a trabalhou com toda a arte que adquirira, e lhe deu a semelhança de um homem,
14 - ou o aspecto de algum vil animal. Pôs - lhe vermelhão, uma demão de uma tinta encarnada, e encobriu-lhe cuidadosamente todo defeito.
15 - Em seguida, preparou-lhe um nicho digno dele. e o fixou à parede, segurando-o com um prego:
16 - foi por medo que caísse, que tomou este cuidado, porque sabe muito bem que ele não pode ajudar-se a si mesmo, pois não passa de uma estátua que tem necessidade de um apoio.
17 - Mas quando lhe implora por seus bens, seus casamentos, seus filhos, não se envergonha de falar ao que é inanimado, e pede saúde ao que é desprezível.
18 - Reclama a vida ao que é morto, e procura socorro no que é débil e para uma viagem, invoca o que não pode andar
19 - para um lucro, um trabalho, o bom êxito de uma obra de suas mãos, pede a força ao que nem é capaz de mover as mãos.Sabedoria, 14
1 - Outro, por sua vez, que quer navegar e se prepara para atravessar as impetuosas ondas, invoca um madeiro de pior qualidade que o navio que o leva
2 - porque o desejo do lucro inventou o navio, e uma hábil sabedoria dirigiu sua construção.
3 - Mas sois vós, Pai, que o governais pela vossa Providência, porque, se abristes caminho, mesmo no mar, e uma rota segura no meio das ondas -
4 - mostrando por aí que vós podeis tirar do perigo aquele que as afronta mesmo sem meios -,
5 - quereis entretanto que não sejam inúteis as obras de vossa sabedoria. Por isso os homens confiam a própria vida a um pouco de madeira e atravessam em segurança as ondas num navio.
6 - Assim, com efeito, quando na origem dos tempos fizestes perecer gigantes orgulhosos, a esperança do universo, refugiando-se num barco, que vossa mão governava, conservou para o mundo o germe de uma geração.
7 - Porque é bendito o madeiro pelo qual se opera a justiça,
8 - mas maldito é o ídolo, ele e o que o fez este porque o formou, aquele porque, sendo corruptível, leva o nome de deus.
9 - Com efeito, Deus odeia tanto o ímpio quanto sua impiedade,
10 - e a obra sofrerá o mesmo castigo que o autor.
11 - Este é o motivo porque também os ídolos das nações serão julgados, porque, na criação de Deus, eles se tornaram uma abominação, objetos de escândalo para os homens, e laços para os pés dos insensatos.
12 - É pela idealização dos ídolos que começou a apostasia, e sua invenção foi a perda dos humanos.
13 - Eles não existiam no princípio e não durarão para sempre
14 - a vaidade dos homens os introduziu no mundo. E, por causa disso, Deus decidiu a sua destruição para breve.
15 - Um pai aflito por um luto prematuro, tendo mandado fazer a imagem do filho, tão cedo arrebatado, honrou, em seguida, como a um deus aquele que não passava de um morto, e transmitiu, aos seus, certos ritos secretos e cerimônias.
16 - Este costume ímpio, tendo-se firmado com o tempo, foi depois observado como lei.
17 - Foi também em consequência das ordens dos príncipes que se adoraram imagens esculpidas, porque aqueles que não podiam honrar pessoalmente, porque moravam longe deles, fizeram representar o que se achava distante, e expuseram publicamente a imagem do rei venerado, a fim de lisonjeá-lo de longe com seu zelo, como se estivesse presente.
18 - Isto contribuiu ainda para o estabelecimento deste culto, mesmo entre os que não conheciam o rei foi a ambição do artista,
19 - que, talvez, querendo agradar ao soberano, deu-lhe, por sua arte, a semelhança do belo
20 - e a multidão, seduzida pelo encanto da obra, em breve tomou por deus aquele que tinham honrado como homem.
21 - E isto foi uma cilada para a humanidade: os homens, sujeitando-se à lei da desgraça e da tirania, deram à pedra e à madeira o nome incomunicável.
22 - Como se não bastasse terem errado acerca do conhecimento de Deus, embora passando a vida numa longa luta de ignorância, eles dão o nome de paz a um estado tão infeliz.
23 - Com efeito, sacrificando seus filhos, celebrando mistérios ocultos, ou entregando-se a orgias desenfreadas de religiões exóticas,
24 - eles já não guardam a honestidade nem na vida nem no casamento, mas um faz desaparecer o outro pelo ardil, ou o ultraja pelo adultério.
25 - Tudo está numa confusão completa - sangue, homicídio, furto, fraude, corrupção, deslealdade, revolta, perjúrio,
26 - perseguição dos bons, esquecimento dos benefícios, contaminação das almas, perversão dos sexos, instabilidade das uniões, adultérios e impudicícias -
27 - porque o culto de inomináveis ídolos é o começo, a causa e o fim de todo o mal.
28 - (Seus adeptos) incitam o prazer até a loucura, ou fazem vaticínios falsos, ou vivem na injustiça, ou, sem escrúpulo, juram falso,
29 - porque, confiando em ídolos inanimados, esperam não ser punidos de sua má fé.
30 - Contudo, o castigo os atingirá por duplo motivo: porque eles desconheceram a Deus, afeiçoando-se aos ídolos, e porque são culpados, por desprezo à santidade da religião, de ter feito juramentos enganadores.
31 - Pois não é o poder dos ídolos invocados, mas o castigo reservado ao pecador, que sempre persegue as faltas dos maus.
Sabedoria, 15
1 - Mas vós, Deus nosso, sois benfazejo e verdadeiro, vós sois paciente e tudo governais com misericórdia
2 - com efeito, mesmo se pecamos, somos vossos, porque conhecemos vosso poder mas não pecaremos, cientes de que somos considerados como vossos.
3 - Porque conhecer-vos é a perfeita justiça, e conhecer vosso poder é a raiz da imortalidade.
4 - Não fomos seduzidos pelas invenções da arte corruptora dos homens nem pelo vão trabalho dos pintores: borrada figura de cores misturadas,
5 - cuja vista excita os desejos dos insensatos, fantasma inanimado de uma imagem sem vida que provoca a paixão!
6 - Cativados pelo mal, não merecem esperar senão o mal, os que o fazem, os que o amam e os que o veneram.
7 - Eis, portanto, um oleiro que amassa laboriosamente a terra mole, e forma diversos objetos para nosso uso, mas da mesma argila faz vasos destinados a fins nobres e outros, indiferentemente, para usos opostos. Para qual destes usos cada vaso será aplicado? O oleiro será o juiz.
8 - Do mesmo barro, forma também, como obreiro perverso, uma vã divindade, ele que, ainda há pouco, nasceu da terra, e em breve voltará a ela, de onde foi tirado, quando lhe serão pedidas as contas de sua vida.
9 - Ele mesmo não tem preocupação alguma com o próprio desfalecimento, nem com a brevidade da vida ele rivaliza, pelo contrário, com aqueles que trabalham o ouro e a prata, imita os que trabalham o cobre.
10 - Pó é o seu coração, mais vil que a terra sua esperança, e põe sua glória em fabricar objetos enganadores. E mais desprezível que o barro é sua vida,
11 - porque não reconheceu aquele que o formou, aquele que lhe inspirou uma alma ativa e lhe insuflou o espírito vital.
12 - Para ele a vida é um divertimento, e nossa existência um mercado lucrativo, porque, diz ele, é preciso aproveitar-se de tudo, mesmo do mal.
13 - Mais que qualquer outro, esse homem sabe que peca, fazendo do mesmo barro vasos frágeis e ídolos.
14 - Ora, verdadeiramente, muito insensatos, mais infortunados que a alma da criança, são os inimigos de vosso povo, que o oprimiram,
15 - porque eles também tiveram por deuses todos os ídolos das nações, que não podem servir-se de seus olhos para ver, que não têm nariz para aspirar o ar, nem ouvidos para ouvir, nem os dedos das mãos para apalpar, e cujos pés são incapazes de andar
16 - foi, com efeito, um homem que os fez, formou-os alguém que recebeu a alma de empréstimo. Nenhum homem pode fazer um deus, mesmo semelhante a si próprio,
17 - porque, sendo ele próprio mortal, morto é tudo que produz com suas mãos ímpias. De fato, ele vale mais que os objetos que venera ele, pelo menos, tem vida, enquanto os ídolos não a têm.
18 - Chega-se até a adorar os mais odiosos animais, que são piores ainda que os outros animais irracionais,
19 - que nem mesmo possuem o que outros seres vivos possuem: bastante beleza para serem amados, e que foram excluídos da aprovação e da bênção de Deus.
Sabedoria, 16
1 - Por isso foram justamente castigados por animais dessa espécie e atormentados por uma multidão de animais
2 - em vez de feri-lo assim, vós favorecíeis vosso povo, satisfazendo por um alimento surpreendente o ardor de seu apetite, e oferecendo-lhe por alimento codornizes.
3 - De tal modo que aqueles, mau grado sua fome, diante do aspecto hediondo de animais enviados contra eles, experimentaram a náusea estes, após uma curta privação, receberam um alimento maravilhoso.
4 - Pois era preciso que os primeiros, os opressores, fossem oprimidos por uma inexorável fome, e que aos outros fossem apenas mostrados os tormentos suportados por seus inimigos.
5 - Efetivamente, quando o cruel furor dos animais os atingiu também, e quando pereceram com a mordedura de sinuosas serpentes, vossa cólera não durou até o fim.
6 - Foram por pouco tempo atormentados, para sua correção: eles possuíram um sinal de salvação que lhes lembrava o preceito de vossa lei.
7 - E quem se voltava para ele era salvo, não em vista do objeto que olhava, mas por vós, Senhor, que sois o salvador de todos.
8 - Com isso mostráveis a vossos inimigos, que sois vós que livrais de todo o mal.
9 - Quanto a eles as mordeduras dos gafanhotos e das moscas os matavam e não se encontrou remédio para salvar sua vida, porque mereciam ser castigados por tais instrumentos
10 - mas a vossos filhos, mesmo os dentes de serpentes venenosas não os puderam vencer, porque sobrevindo a vossa misericórdia curou-os.
11 - Eram picados, para que se lembrassem de vossas palavras, e, em seguida, ficavam curados, para que não viessem a esquecê-las completamente e a subtraírem-se a si mesmos de vossos benefícios.
12 - Não foi uma erva nem algum ungüento que os curou, mas a vossa palavra que cura todas as coisas, Senhor.
13 - Porque vós sois senhor da vida e da morte. Vós conduzis às portas do Hades e de lá tirais
14 - enquanto o homem, se pode matar por sua maldade, não pode fazer voltar o espírito uma vez saído, nem chamar de volta a alma que o Hades já recebeu.
15 - Escapar à vossa mão é impossível,
16 - e os ímpios, que recusaram conhecer-vos, foram fustigados pela força de vosso braço, perseguidos por chuvas extraordinárias, saraivas e implacáveis tempestades, e consumidos pelo fogo dos raios.
17 - O que havia de mais admirável ainda, é que, na água que tudo extingue, o fogo tomava mais violência, porque o universo toma a defesa dos justos.
18 - Ora, a chama temperava seu ardor para não queimar os animais enviados contra os ímpios, para que estes se apercebessem e reconhecessem que eram perseguidos pelo julgamento de Deus.
19 - Ora, excedendo sua força habitual, o fogo ardia mesmo no meio da água para destruir os frutos de uma terra iníqua...
20 - Mas, pelo contrário, foi com o alimento dos anjos que alimentastes vosso povo, e foi do céu que, sem fadiga, vós lhe enviastes um pão já preparado, contendo em si todas as delícias e adaptando-se a todos os gostos.
21 - Esta substância que dáveis se parecia com a doçura que mostráveis a vossos filhos. Ela se adaptava ao desejo de quem a comia, e transformava-se naquilo que cada qual desejava.
22 - (Embora fosse como) neve e gelo, ela suportava o fogo sem se fundir, para mostrar que era para os inimigos que o fogo destruía as colheitas, quando ardia, apesar da saraiva, e brilhava debaixo de chuvas,
23 - enquanto que, quando se tratava de alimentar os justos, até perdia sua natural violência.
24 - A criatura que vos é submissa, a vós, seu Criador, aumenta sua força para castigar os maus, e os modera para o bem dos que puseram em vós sua fé.
25 - Do mesmo modo, transformada em tudo que se queria, servia à vossa generosidade que a todos alimenta, segundo a vontade dos que dela tinham necessidade,
26 - para que os filhos que vós amais, Senhor, aprendessem que não são os frutos da terra que alimentam o homem, mas é vossa palavra que conserva em vida aqueles que crêem em vós.
27 - O que não era destruído pelo fogo, fundia-se ao simples calor de um raio de sol,
28 - para que se soubesse que é preciso antecipar-se ao sol para vos agradecer, e que é preciso adorar-vos antes de raiar o dia
29 - porque a esperança do ingrato é como a geleira do inverno, que se derramará como água inútil.
Sabedoria, 17
1 - Em verdade, grandes e impenetráveis são vossos juízos, Senhor por isso as almas grosseiras caíram no erro.
2 - Por terem acreditado que podiam oprimir a santa nação, os ímpios, prisioneiros das trevas e encarcerados por uma longa noite, jaziam encerrados nas suas casas, tentando escapar à vossa incessante vigilância.
3 - Depois de terem imaginado que, com seus secretos pecados, ficariam escondidos sob o sombrio véu do esquecimento, eles se viram dispersados, como presa de um terrível espanto, e amedrontados por alucinações.
4 - Mesmo o canto mais afastado em que se abrigavam não os punha ao abrigo do terror: ruídos aterradores ressoavam em torno deles, e taciturnos espectros de lúgubre aspecto lhes apareciam.
5 - Nenhuma chama, por intensa que fosse, chegava a iluminar. E a luz brilhante dos astros era impotente para alumiar esta noite sombria.
6 - Mas aparecia-lhes de súbito nada mais que uma chama aterradora, e, tomados de terror por esta visão fugitiva, julgavam essas aparições mais terríveis ainda.
7 - A arte dos mágicos se mostrou ilusória, e esta sabedoria, a que eles pretendiam, evidenciou-se vergonhosamente como falsidade.
8 - Aqueles que se jactavam de banir das almas doentes o terror e a perturbação, eram eles mesmos atormentados por um ridículo temor.
9 - Mesmo quando nada de mais grave os aterrorizava, a passagem dos animais e o silvo das serpentes punham-nos fora de si, e eles morriam de medo. Recusavam até mesmo contemplar essa atmosfera à qual nada podia escapar
10 - porque a maldade, condenada por seu próprio testemunho, é medrosa, e, sob o peso da consciência, supõe sempre o pior,
11 - pois o temor não é outra coisa que a privação dos socorros trazidos pela reflexão,
12 - porque, quanto menor for em sua alma a esperança de auxílio, tanto mais penosa é a ignorância daquilo de que se tem medo.
13 - Eles, durante essa noite de impotência, saída dos recantos do Hades impotente, dormiam num mesmo sono,
14 - agitados, de um lado, pelo terror dos espectros, e paralisados, de outro, pelo desfalecimento da alma pois era um pavor repentino e inesperado o que se abatera sobre eles.
15 - E todo aquele que caía sem força, ficava como que preso e encerrado num cárcere sem ferros.
16 - Fosse ele camponês ou pastor, ou o operário que se afadiga sozinho no seu trabalho, uma vez surpreendido, tinha de suportar a inevitável necessidade, porque todos estavam ligados por uma mesma cadeia de trevas.
17 - O silvo do vento, o canto harmonioso dos passarinhos nos ramos espessos, o murmúrio da água correndo precipitadamente, o estrondo das rochas que se despenhavam,
18 - a carreira invisível dos animais que saltavam, os urros dos animais selvagens, o eco que repercutia nas cavidades dos montes: tudo os paralisava de terror.
19 - Enquanto o mundo inteiro era alumiado de uma brilhante luz, e sem obstáculo se entregava às suas ocupações,
20 - somente sobre eles se estendia uma pesada noite, imagem das trevas que mais tarde os deviam acolher e eram para si mesmos um peso mais insuportável que esta escuridão.
Sabedoria, 18
1 - Contudo, para vossos santos havia uma luz brilhantíssima. Sem verem seus semblantes, os outros ouviam-lhes a voz, e julgavam-nos felizes por não sofrerem os mesmos tormentos.
2 - Davam-lhes graças, porque não se vingavam dos maus tratos suportados, e pediam-lhes perdão de sua inimizade.
3 - Pelo contrário, vós destes uma coluna luminosa para guiá-los na sua marcha para o desconhecido, como um sol que sem incomodá-los alumiava seu glorioso êxodo.
4 - Mas eles bem mereciam ser privados da luz e aprisionados nas trevas, eles, que tinham encerrado em prisões os vossos filhos, através dos quais a incorruptível luz da lei se devia comunicar ao mundo.
5 - Também tinham resolvido levar à morte os filhos dos santos, mas um deles foi exposto e salvo, e para puni-los fizestes perecer em multidão os seus filhos, e, todos juntos, vós os aniquilastes na profundeza das águas.
6 - Esta mesma noite tinha sido conhecida de antemão por nossos pais, para que, conhecendo bem em que juramentos confiavam, ficassem cheios de coragem.
7 - Assim vosso povo esperava tanto a salvação dos justos como a perdição dos ímpios,
8 - e pelo mesmo fato de terdes destruído nossos inimigos, vós nos convidastes a ser vossos e nos honrastes.
9 - Por isso, os santos filhos dos justos ofereciam secretamente um sacrifício de comum acordo estabeleciam o pacto divino: que os santos participariam dos mesmos bens e correriam os mesmos perigos e entoavam já os hinos de seus pais,
10 - quando se elevaram os gritos confusos dos inimigos e se espalharam as lamentações dos que choravam seus filhos.
11 - Uma mesma sentença feria o escravo e o senhor, o homem do povo sofria o mesmo castigo que o rei.
12 - Todos igualmente tinham um número incalculável de mortos abatidos da mesma maneira os sobreviventes não eram suficientes para sepultá-los. porque, num instante, sua melhor geração era exterminada.
13 - Depois de terem permanecido incrédulos por causa de seus sortilégios, reconheceram, vendo morrer seus primogênitos, que esse povo era verdadeiramente filho de Deus,
14 - porque, quando um profundo silêncio envolvia todas as coisas, e a noite chegava ao meio de seu curso,
15 - vossa palavra todo-poderosa desceu dos céus e do trono real, e, qual um implacável guerreiro, arremessou-se sobre a terra condenada à ruína.
16 - De pé, ela tudo encheu de morte, e, pisando a terra, tocava os céus.
17 - No mesmo instante, visões e sonhos terríveis os perturbaram, e temores inesperados os assaltaram
18 - tombando aqui e acolá, semimortos, revelavam a causa da morte que os atingia
19 - porque os sonhos que os tinham agitado tinham-nos informado antecipadamente, para que eles não perecessem sem conhecer a causa de sua desgraça.
20 - Verdade é que a prova da morte feriu também os justos, e numerosos foram os que ela abateu no deserto, mas a ira de Deus não durou muito tempo
21 - porque um homem irrepreensível se apressou a tomar sua defesa, servindo-se das armas de seu ministério pessoal, a oração e o sacrifício expiatório do incenso. Opôs-se à ira, e pôs fim ao flagelo, mostrando que era vosso servo.
22 - Dominou a revolta, não pela força física, nem pela força das armas, mas pela sua palavra deteve aquele que castigava, relembrando-lhe os juramentos feitos aos antepassados e a aliança estabelecida.
23 - Já os mortos se amontoavam uns sobre os outros, quando ele interveio, deteve a cólera e afastou-a dos vivos.
24 - Na sua longa vestimenta estava representado o universo inteiro nas quatro fileiras de pedras os nomes gloriosos dos patriarcas e no diadema de sua cabeça vossa Majestade.
25 - Diante destas coisas cedeu o exterminador e foi diante destas coisas que retrocedeu: porque a simples demonstração de vossa ira era suficiente.
Sabedoria, 19
1 - Quanto aos ímpios, inexorável foi a ira que os perseguiu até o fim: porque Deus previa o que eles haveriam de fazer,
2 - isto é, depois de terem deixado partir (os justos), instando mesmo que fossem embora, mudariam de opinião e os perseguiriam.
3 - Na verdade, eles estavam ainda enlutados, e gemiam ainda sobre a tumba de seus mortos, quando loucamente tomaram outra resolução e perseguiram, como a fugitivos, aqueles aos quais tinham rogado que partissem.
4 - Um merecido destino os impelia a esse proceder extremo, e os atirava no olvido dos acontecimentos passados, para que sofressem, em meio a tormentos, um castigo completo,
5 - e fossem feridos de uma morte insólita, enquanto vosso povo tentava uma extraordinária passagem.
6 - É que toda a criação, obedecendo às vossas ordens, foi remodelada em sua natureza, para que vossos filhos fossem conservados ilesos.
7 - Foi vista uma nuvem cobrir o acampamento, e a terra seca surgir do que tinha sido água, um caminho viável formar-se no mar Vermelho, e um campo verdejante emergir das ondas impetuosas.
8 - Por aí passou toda ela, a nação dos que vossa mão protegia, e que viram singulares prodígios.
9 - Iam como cavalos conduzidos à pastagem, e saltavam como cordeiros, glorificando-vos a vós, Senhor, seu libertador,
10 - porque eles se lembravam ainda do que tinha acontecido na terra estrangeira: como a terra, contrariando a geração dos vivos, tinha produzido moscas, e como o rio, em lugar de peixes, tinha lançado fora uma multidão de rãs.
11 - Mais tarde, viram ainda nascer uma nova espécie de pássaros, quando, premidos pela cobiça, pediram manjares delicados, porquanto, para satisfazê-los, codornizes subiram do mar.
12 - Os castigos não surpreenderam os pecadores, sem que fossem antes advertidos pela violência dos raios.
13 - Suportavam justamente o castigo de sua própria maldade, porque tinham mostrado excessivo ódio pelo estrangeiro.
14 - Houve muitos que não quiseram receber hóspedes desconhecidos, mas estes reduziram à escravidão hóspedes que tinham sido benfeitores.
15 - E isso não é tudo haverá algo a mais que um castigo qualquer para aqueles que acolheram mal os estrangeiros:
16 - mas estes, a princípio, receberam bem seus hóspedes, e concederam-lhes a participação em seus direitos. Em seguida, eles os encheram de males.
17 - Do mesmo modo, foram feridos de cegueira, como aqueles homens, às portas do justo, quando, envolvidos por uma profunda escuridão, procuravam, cada um de seu lado, o caminho para suas casas.
18 - Assim, os elementos mudavam suas propriedades entre si, como na harpa os sons mudam de ritmo, conservando a mesma tonalidade. É o que se pode verificar perfeitamente quando se consideram esses acontecimentos.
19 - Os seres terrestres tornavam-se aquáticos, os que nadam passavam à terra,
20 - o fogo era mais violento debaixo da chuva, e a água esquecia a propriedade que tem de extingui-lo.
21 - Além disso, as chamas não ofendiam as carnes dos frágeis animais que as atravessavam, e não liquefaziam esse alimento celeste, semelhante ao gelo e inteiramente capaz de se derreter.
22 - É que em tudo, Senhor, engrandecestes e glorificastes vosso povo, e não vos dedignastes de assisti-lo em todo o tempo e em todo o lugar.
